Sérgio Souza
Poeta senegalês,radicado no Brasil,
professor de Literatura Portuguesa).
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SAUDADE DO ESPORTE BRETÃO
SÉRGIO SOUZA
Sou do tempo em que a seleção canarinho jogava no Brasil e não era um apanhando de jogadores que mora sabe-se lá onde e se encontram nos aeroportos e treinam nos aviões, sou do tempo da objetividade do futebol aberto e de craques de bola forjados nos campinhos de várzea das periferias, lugar de gente pobre e esperançosa e não refúgio de marginalizados fora da lei.
Foi com este espírito um tanto saudosista que neste último domingo fui ao Morumbi magnífico estádio de propriedade do São Paulo Futebol Clube, foi com a vontade de ver um tal Edson Arantes do Nascimento jogar que aceitei o convite de meu filho, sampaulino roxo, herança de família; foi ainda com este espírito dos anos sessenta que para lá me dirigi, qual o quê, a torcida hoje é outra, os propósitos hoje são outros, o futebol arte é um emaranhado de dribles sem objetividade, um tal de traça pé a que chamam pedalada, mas e o gol?
Lembrei-me de quando ainda moleque na companhia de pai fui ao estádio ver São Paulo e Palmeiras, o placar já não lembro, mas o tricolor ganhou, disto não me esqueço, era uma aventura para chegar ao estádio, a pé do Sumaré até o bairro do Morumbi, atravessando campos e várzeas, hoje avenidas largas fazem a conexão com o resto da cidade, o comércio, outrora precário nas imediações dos campos, hoje está muito profissional e organizado.
O espetáculo das cores melhorou muito, bandeiras e bandeirolas balançam com alegria, mas e o futebol? Onde foi parar a satisfação do torcedor de arquibancada que passa metade do domingo sob sol escaldante para ver um único gol chorado lá pelos 44 minutos do segundo tempo? Eu pergunto onde foi parar o gol?
Aí que a saudade bateu de verdade, um senhor ao meu lado lamentava as táticas defensivas de hoje, onde o importante é não perder, se ganhar deu sorte, outro dizia em desconsolo, estes são os bons de bola que ganham fortunas?
É…, como tudo o futebol virou um comércio dos mais loucos, um menino que diante de um empresário qualquer fizer três ou quatro firulas com a bola é tido como craque e na semana seguinte estará se transferindo, a peso de euro para qualquer timeco da Europa, pega sua bolada na transação, que satisfará a todos, joga uma meia dúzia de partidas e retornará ao Brasil emprestado para outro timeco qualquer e pronto está feita uma carreira de jogador de futebol, é…, eu ainda sou do tempo de um certo idealismo, sou do tempo em que a camisa do clube era um manto sagrado e não uma camiseta que se usa para ir à feira; no domingo vi desfilar pelo gramado quase impecável do Cícero Pompeu de Toledo, uma infinidade de meios-craques mas que a massa insuflada gritava seus nomes de ídolos com o frenesi de êxtase.
Ninguém deu conta de que o tempo passou, outros são os objetivos, o tempo passou e o ganhar dinheiro é mais importante que ganhar o jogo, o importante é encher os olhos do torcedor com meia dúzia de malabarismo “bolístico” do que partir para o gol e fazer a satisfação da galera, dede que ao final a mídia fale bem e que alguém de fora tenha visto o pseudo-craque fazer seu serviço, ponto final no futebol arte, o que vale agora é um magro 1X0 e uma gorda conta bancária em dólar, assim eu passei o domingo entre o sonho do passado e o pesadelo do presente, mas deu São Paulo de novo!
Postado em 29 de janeiro de 2008
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