Belvedere Bruno
Colunista do Jornal Santa Rosa – Niterói
http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/
®Direitos autorais reservados.
Material editado com a autorização da autora.
,,,
..
___________________♥____________________
VESTÍGIOS
Belvedere Bruno
♥
Ariane! Mil vezes grito seu nome. Em delírio, busco trazê-la de volta aos meus dias. Desperto nas madrugadas e tento alcançá-la , mas você se desvanece, só me restando o consolo dos seus vestígios.
Jamais pensei em separação, pois nosso amor parecia eterno. Hoje, penso na ventura que seria vê-la livre, ou mesmo em outros braços. Assim, haveria ainda o sopro da vida. Onde agora habita a sua graça ?
Entrego-me , então, aos devaneios: correndo em campos floridos, você colhe margaridas, salpicando-as nos cabelos. Sinto a maciez de sua pele, beijo seus lábios, deslizo em seu corpo nu. Gravo em minha memória seus risos , seus olhares, seus cantares, mas temo que um dia o tempo me leve as mais caras lembranças.
Restam-me a dor e o sabor amargo do não dito. Certezas, somente as do nunca mais!
Ariane! Mil vezes grito seu nome. Responde apenas o silêncio.
Belvedere Bruno - postado em 11 de fevereiro de 2008 por Tania Lemke
___________________♥____________________
MARCAS DO TEMPO
Belvedere Bruno
♥
Debruçada na janela, observo o mundo que, há tempos, se constitui no cotidiano de uma rua de periferia. O cansaço chegou, somado a dificuldades no caminhar, e a visão, turva , me mostra apenas uma sucessão de dias monótonos, vazios . Muitas vezes, me pergunto se vale a pena viver sem motivações , alegrias, esperanças . Nada existe que me prenda a esse mundo. Olho os novelos de lã, que sempre foram fontes de alegria e prazer, e me lembro das colchas, coletes, vestidos e blusas que, carinhosamente, tricotava para minha família. Era meu passatempo preferido, mas agora, com essa insensibilidade nas pontas dos dedos … tento , mas em vão. As agulhas caem , as linhas se embaraçam . Desisti, também , das revistas, pois meus olhos vêem nelas apenas borrões. Que doença danada! Foi minando meu corpo e, agora, já não tenho sequer como andar, e rastejo. De tão calada que passo meus dias, sequer consegui , na visita médica mensal, explicar o que sinto de esquisito . As palavras ficaram travadas e o máximo que consegui emitir pareceu um grunhido . Foi quando me dei conta de que já estava excluída da vida. Lembrei, sorrindo, de uma matéria de revista, que falava sobre certas culturas; países onde as pessoas se preparavam para a morte, se deitando, ou sentando, até que Ela chegasse. Eu me sento todos os dias, horas a fio, esperando-a, e Ela não vem. As forças se extinguem. Sei que a solidão é algo de que não se corre, principalmente quando as pernas já não servem para nada, e a cabeça sempre se esquece de raciocinar. Vario demais. Chego a ver nos outros o rosto do meu pai, da minha mãe…
Não gosto de contar sobre a dor que marcou minha vida. Foi por conta da minha única filha que, duas semanas após meu aniversário de oitenta anos, disse que não podia mais ficar comigo e me trouxe para esse asilo. Não pensei que fosse um adeus, até que os anos passaram. E assim , fiquei só.
Daquele dia em diante, nunca mais senti dor. Dormências, sim. Esquecimentos…
Por anos a fio, vivi entre novelos de lã, tricotando, lendo revistas e vendo a vida passar através da janela.
Agora, cansada, todos os dias me sento, à espera de quem, decerto, não me faltará, e virá, algum dia.
.
Belvedere Bruno - postado em 29 de janeiro de 2008 por Tania Lemke
http://www.dominiocultural.com/ver_coluna.php?id=4523
..
___________________♥____________________
LANÇAMENTO: EBOOK – AVBL: 31/01/2008
Título: O Tempo Voa
Autora: Belvedere Bruno
Download gratuito:
http://www.ebooks.avbl.com.br/biblioteca1/belvederebruno.htm
Postado em 01 de fevereiro de 2008 por Tania Lemke
Tube por
___________________♥___________________

