Aquiles Reis

  
   Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4,
   é produtor e apresentador do programa
   o Gogó de Aquiles, apresentado na
   rádio Roquete Pinto FM do Rio de
   Janeiro às segundas-feiras, das 15h
   às 16h: www.fm94.rj.gov.br

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SAMBA E FORRÓ, UMA COISA SÓ

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     O forró bem que estava precisando de quem o levasse novamente ao lugar de destaque que lhe cabe na música brasileira. Coube a Josildo Sá ser o cara. Forrozeiro popular no Recife, ele demonstra que ainda há muito para se fazer e recriar na música, desde o samba até o forró.
     Faz tempo não se tem um trabalho tão bom de se ouvir quanto de se dançar, como este CD Samba de Latada (Rob Digital). Além de contar com uma voz personalíssima, talhada para o ofício, Josildo compõe bem. São dele duas das faixas do CD: “Na Água do Bebedouro” e “Quixabinha”, esta em parceria com Anchieta Dali, que também compôs “Fulosinha” e “Beijú”. O repertório é perfeito para o que ele se propôs a cantar. Tem bambas do gênero, Gonzagão e Zé Dantas (“Forró de Mané Vito”), além de Cecéu (“Pra Virar Lobisomem”). E também conterrâneos seus, pouco conhecidos, mas igualmente competentes: Caçote do Rojão (“Eu Gosto de Você”), Thiago Duarte (“Pro Paulo”), Oswaldo Oliveira e Dílson Dória (“Fraguei”) e Apolônio da Quixabinha (“Cumpade Zé de Bina”). Josildo se destaca em “Quixabinha”, “Fraguei”, “Fulosinha” e “Nega Buliçosa”.
     Além do jeitão irreverente de cantar, Josildo tinha na cabeça o projeto de cantar samba como se faz nas latadas das casas do sertão nordestino. (“Latada” é aquele puxadinho que se constrói, no caso com folha de flandres, para proteger o quintal da casa da chuva e do sol). Ele encasquetou que tinha porque tinha de dizer ao público que samba e forró têm o mesmo significado musical e são a fiel tradução da festa armada na latada para se tocar, dançar e cantar música brasileira. Apenas tudo isso.
     Mas para tocar o sonho pra frente, Josildo queria muito mais. Pois não foi que o cabra deu de convidar ninguém menos do que Paulo Moura para dividir com ele o seu Samba de Latada. Endoidou o forrozeiro!, imaginaram os céticos. A esses, mestre Paulo calou com um sonoro sim! Encantado, logo seu clarinete soprava os sons que misturavam samba e forró; gafieira e forrobodó; passado e modernidade.
     Estava formada a dupla que voltaria se reunir lá mesmo no Recife para muito ensaiar e criar o disco que agora vem a público graças ao apoio do Governo de Pernambuco e da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf).
     Paulo Moura é desses camaradas que se fazem ainda mais geniais em seu instrumento graças à imensidão de sua generosidade e de sua vocação para o risco. 
  Quando pouca gente tinha peito para encarar as madrugadas tocando numa gafieira pós-moderna (e não foram poucos os craques que gentilmente recusaram seu convite para uma simples canja), lá estava o maestro Paulo Moura à frente de uma orquestra, no carioca Circo Voador. Feliz, tocando pra moçada se esbaldar de tanto suar, de tanto se esfregar dançando, se divertindo, enquanto ouvia harmonias e arranjos tão modernos quanto a ousadia do Paulo.
     E feliz está novamente o maestro genial. Revigorado pelo Samba de Latada, e também pela presença marcante de Josildo Sá, o som de seu clarinete transparente sai ainda mais alegre, ainda mais virtuoso e cheio de síncope e de improviso, pleno de maciez e de manha.
     Paulo Moura sola três músicas do CD: “Pro Paulo” (Chico Chagas), “Baile no Sertão” (dele e Gennaro) e “Carimbó do Moura” (só dele). Na primeira, seu clarinete está irresistível: da introdução até a entrada dos músicos, tudo é modernidade envolta pela mais fiel tradição musical brasileira. Mas é no diálogo entre o clarinete e a zabumba de Raminho que o bicho pega, num dos momentos de improviso mais brilhantes já registrados na (pouca) discografia disponível do forró.
     Samba de Latada é um CD que traz em suas 13 faixas a amostragem do quão diversificada é a música brasileira; do quanto podem ser mais criativos dois músicos de formação díspar quando se fortalecem no som que vem de suas genialidades.
   

 

Postado em 11 de fevereiro de 2008 por Tania Lemke.

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ILHAS SEM FRONTEIRAS

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Das Ilhas Mestiças (disco independente, lançado com apoio da Petrobras), quinto CD do bandolinista, violonista, compositor e arranjador Rodrigo Lessa, traduz um conceito plural.

Nele, 13 músicas redesenham o mapa geográfico das ilhas de São Tomé e Príncipe e de Cuba, do arquipélago de Cabo Verde, e do Rio de Janeiro. E funde África e Brasil, torna-os iguais no limite que se sobrepõe à pobreza que os equivale. 

Das Ilhas Mestiças foi idealizado e gravado pelo próprio Lessa, que convidou o baterista Xande Figueiredo, o baixista Luis Louchard, o violonista Rogério Souza e os percussionistas Jaguará, Marcos Esguleba, Bernardo Aguiar, Celsinho Silva e Jorginho do Pandeiro. Além de Eduardo Neves (sax e flauta), Zé Carlos Bigorna (saxes), Nailson Simões e Jessé Sadok (trompetes). E mais o violonista Gabriel Improta e o acordeonista Chico Chagas. Trouxe também o cantor e trompetista Julio Padron e o percussionista Jose Izquierdo, ambos cubanos; os caboverdianos Toi Vieira, pianista, e Vaiss, guitarrista; e os cantores portugueses Janita e Vitorino Salomé.Das Ilhas Mestiças é um álbum com composições de Lessa (exceção a “Burrito”, que tem parceria de Eduardo Neves). Ele também escreveu os arranjos (exceções a “Burrito”, que tem arranjo de Eduardo Neves, e “Rala Coxa”, cujo arranjo ele dividiu com Rogério Souza).  Inspirado pelos ritmos brasileiros que embalam sua musicalidade, Rodrigo Lessa apontou a proa rumo a África e ao Caribe e foi devagar, devagarzinho, rumo a mares e marés distantes. Feito timoneiro experiente, para navegar ele supriu sua nau de sonoridades repletas de congas e cinseros, bandolins e trompetes, cavaquinhos e cantos de toda parte, cercados por oceanos sem fim que continuam para muito além e bem aquém da linha do Equador – por sob as névoas do anoitecer, por cima de divisões lingüísticas, acima de ditaduras à esquerda e à direita.

Cruzamento de sons que alimentaram sua pesquisa cheia de encantamento a rodo, a gosto. O CD abre com “Calango Mindelo”. Do poderoso naipe de metais destaca-se o trompete com surdina tocado por Julio Padron, e sente-se o que está por vir: malemolência sensual, brasilidade e africanidade a torto e a direito. A levada de salsa cubana se (com) funde com a do chorinho carioca. Pronto! Está dada a senha para a miscigenação irrestrita, marca registrada do trabalho gravado após profícua e respeitosa jornada.A segunda faixa, “De mão cheia”, tem o sabor das noites cariocas e, ao contrário da primeira, conta com o toque da bateria. E é ela quem pontua a conversa das cordas do bandolim com o violão. Íntimos, eles trocam notas musicais embaladas em preciosa harmonia. Aliás, que belo criador é Rodrigo Lessa! “Suave Dengo” é samba desses de gafieira. Para encaixar ainda mais cadência no suingue, há o piano de João Donato. Tudo com direito a citação do clássico “A Rã”, dele e Caetano Veloso.E assim, em ritmos rodeados por águas que banham nossas músicas repletas de cantos tão distantes, mas tão próximos entre si, a festa segue. E tome de ajuntar concepções musicais. E haja ilhas para se desfazer fronteiras. Rompidas as barreiras, entregue à façanha de produzir uma grande e internacional identidade sonora, Rodrigo Lessa chega à faixa seis, “Morabeza” – que significa “gozar a vida, bem-estar, boa conversa”. Ora no violão, ora no bandolim, ele ergue uma ilha de tranqüila simplicidade. Cativante beleza a demonstrar que nem só de ritmos fortes se faz um bom baile.

A seguir, como que voltando quente à linha dançante, predominante em Das Ilhas Mestiças, Lessa divaga na bela “Sonhos”, tocada ao piano, até que o ritmo volte firme, forte, precipitando o que ainda mais virá: festança da música e de músicos que, embora ilhados, criam e parecem nascidos no mesmo quintal da mesma aldeia.

Postado em 29 de janeiro de 2008 por Tania Lemke.

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